O marco do recomeço. Um Fusca 1968 branco Lótus, um novo ciclo para o dono e uma nova vida em forma de Cal Style.
- Adriano Piva
- 15 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

FOTOS E TÊXTO: ADRIANO PIVA
Um Fusca 1968, um recomeço de vida e a certeza de que carro antigo nunca é só um carro, é muito mais do que isso.
Todo Fusca nasce igual na fábrica. Alguns saem da linha de montagem e seguem uma vida comum. Outros renascem ao mudar de garagem, assim como nós muitas vezes recomeçamos, depois de um susto da vida. Recomeçar com aquele cheiro de gasolina, cercado de amigos e muita vontade de viver é inexplicável é extraordinário.
Este Fusca 1968 branco Lótus é sobre estes recomeços da vida. Sobre identidade. Sobre tudo aquilo que a cultura aircooled representa quando o mundo insiste em ficar cada vez mais moderno e eletrificado.

Marcelo, ou simplesmente Carmona, tem 48 anos e fala de carro com o mesmo brilho nos olhos de quem cresceu sonhando baixo, mas sonhando firme. Sempre gostou de carros, mas o Fusca nunca saiu do radar. Ficou ali, guardado na memória, esperando a vida dar uma brecha.

A brecha veio depois de um problema sério de saúde. Um divisor de águas. Curado, Carmona decidiu que não dava mais para adiar. Era hora de transformar aquele sonho de infância em algo concreto. Algo que pudesse ser tocado, dirigido e vivido.
O carro apareceu depois de muita pesquisa, conversa e paciência, do jeito que tem que ser. Um VW Fusca 1300, ano 1968, encontrado na WebMotors, mas escolhido com critério de quem sabe exatamente o que quer. Não era qualquer Fusca. Era a base certa para o projeto que ele imaginava há anos.
A ideia sempre foi clara desde o início: clássico, limpo e com personalidade. Nada de exageros. Nada de modismos passageiros. O branco Lótus, o rebaixamento na medida certa e o teto solar deram forma ao carro que existia apenas na cabeça dele. Um Fusca que respeita a história, mas não vive preso a ela.


O estilo escolhido foi o Cal Style, mas longe da caricatura. Rodas taludas, visual baixo, postura correta. Na dianteira, rodas tala 4,5 com pneus 155/60/15. Na traseira, tala 8 com pneus 195/65/15. Quinta roda com cinta, porque detalhe também fala, e muito, sobre quem constrói um carro.
A suspensão segue a receita clássica que funciona. Três centímetros a menos de cada lado na dianteira, com catracas, e facões fixos atrás. Sem inventar moda. Sem tentar reinventar a roda. Apenas fazendo bem feito.
Por dentro, o Fusca mantém a essência. Interior preto, original, com carrapatinho no assoalho. Volante Banjo by Henkel, instrumentos com vidro abaulado, manopla Runner com relógio e som bluetooth discretamente escondido no porta-luvas. Dá para respeitar o passado sem abrir mão do conforto básico.

Externamente, cada escolha reforça a identidade do projeto. Lanternas Hella made in Germany, frisos de inox, retrovisores Albert, farol de milha e o teto solar RagTop, que não é acessório. É sensação de liberdade.

Na mecânica, o básico e funcional motor 1300, câmbio de quatro marchas, alternador, ignição eletrônica e bomba elétrica. Simples e confiável, do jeito que um carro antigo pede. Parte do trabalho foi feita pelo próprio Carmona. O restante ficou nas mãos de profissionais de confiança.
Já a estética é um spetátulo a parte feita pelo mestre Garga da Garga custom. Projeto de verdade nunca se constrói sozinho, não é mesmo?

E o Fusca não foi feito para ficar parado. Ele roda. Vai a encontros. Pega estrada. Uma das viagens mais marcantes foi para Boituva, com o grupo Ipiranga Aircooled. Treze carros antigos, fotos, risadas, resenha e aquele tipo de memória que não cabe em postagem nenhuma.
Na rua, a reação vem naturalmente. Pessoas param, puxam conversa, contam histórias, lembram da infância. Algumas admiram o visual. Outras sentem nostalgia. O Fusca sempre cria conexão.
Hoje, o maior desafio não é encontrar peças. A internet facilitou muita coisa. O desafio é tempo. Tempo para cuidar, manter e usar. Carro antigo exige presença. Exige atenção. Talvez seja exatamente por isso que ele faça tanto sentido em um mundo apressado demais.

Se pudesse voltar no tempo, Carmona faria tudo de novo. Do mesmo jeito. Cada etapa, cada escolha e cada detalhe fizeram parte da realização de um sonho que nunca foi só sobre ter um carro, mas sobre viver algo com significado.
Como ele mesmo resume, não é só um Fusca. É um projeto pensado em cada detalhe. Algo que carrega história, dedicação e muito do que ele é.
E deixa um recado simples, mas necessário, para quem vive a cena aircooled. Nunca deixem essa cultura morrer. Mais do que carros, ela carrega histórias, personalidade e o prazer único de dirigir algo simples, feito com alma. Não é só sobre motor. É sobre estilo de vida.

Enquanto existirem histórias como essa, a cena segue viva. E forte.




































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